O recente apagão que atingiu São Paulo após a passagem de um ciclone extratropical não pode ser tratado como um “evento imprevisível da natureza”. Ventos fortes, chuvas intensas e quedas de árvores fazem parte da realidade climática de uma metrópole como a nossa. O que não pode ser naturalizado é a fragilidade da rede elétrica diante desses episódios — fragilidade essa construída ao longo dos anos pela negligência com a manutenção preventiva.
O ciclone foi o gatilho, não a causa principal. Em poucas horas, cerca de 2,2 milhões de consumidores ficaram sem energia. Cinco dias depois, mais de 30 mil ainda estavam no escuro, com bairros inteiros paralisados, comércio fechado, serviços públicos prejudicados e famílias vivendo situações de extremo desconforto. Isso revela um sistema que opera no limite, sem margem de segurança.
Manutenção preventiva não é gasto, é investimento. É poda de árvores no período correto, substituição de cabos e equipamentos envelhecidos, reforço estrutural da rede, equipes suficientes e qualificadas para agir antes da emergência. Nada disso é novidade para quem trabalha no setor elétrico. Ao contrário: é o básico.
O problema é que esse básico deixou de ser prioridade. Após a privatização, o número de trabalhadores foi drasticamente reduzido. A antiga Eletropaulo tinha mais de 10 mil funcionários. Hoje, a Enel opera com menos da metade disso. Parte expressiva do serviço foi terceirizada, inclusive áreas estratégicas e de emergência, comprometendo a memória técnica, a integração das equipes e a rapidez na resposta.
Os dados falam por si. Os investimentos em manutenção caíram: de R$ 419 milhões no primeiro semestre de 2023 para R$ 315 milhões no mesmo período de 2024. Nos bastidores, o cenário é ainda mais preocupante: falta de equipamentos básicos, almoxarifados vazios, demora na entrega de EPIs e técnicos impedidos de atuar por ausência de material. Esse sucateamento cobra seu preço quando o tempo fecha.
Na capital paulista, estima-se que a rede elétrica precise de cerca de 18 mil intervenções urgentes para corrigir problemas graves acumulados ao longo dos anos. Some-se a isso uma fila recorrente de milhares de árvores sem poda adequada — justamente um dos principais fatores de queda de energia em dias de vento forte. A conta não fecha.
Outro ponto crítico é o modelo regulatório. A Enel se ampara em indicadores de qualidade ultrapassados, definidos há mais de duas décadas, e em mecanismos como os religadores automáticos, que “maquiam” interrupções e adiam manutenções estruturais. A fiscalização, por sua vez, baseia-se majoritariamente em dados fornecidos pela própria empresa. Assim, o risco é empurrado para a população, enquanto o sistema segue operando no limite do aceitável.
Não se trata apenas de discutir a cassação ou não da concessão. Mudar o nome da empresa, sem mudar o modelo de gestão, pouco resolve. É preciso exigir manutenção preventiva contínua, recomposição real do quadro de trabalhadores, revisão dos indicadores de qualidade, fiscalização rigorosa e transparente e contratos que priorizem a segurança da rede e da população.
Os Eletricitários que sobem em postes, entram em túneis superaquecidos e trabalham sob chuva e vento não podem ser transformados em alvo da revolta popular. Eles são parte da solução, não do problema. O verdadeiro apagão está na falta de planejamento, de investimento e de compromisso com um serviço essencial.
Enquanto a lógica for “pagar para ver se dá problema”, São Paulo continuará vivendo apagões anunciados. A natureza avisa. A manutenção preventiva evita. Ignorá-la é escolher o risco como política.
Eduardo Annunciato – Chicão
Presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo e da Federação Nacional dos Trabalhadores em Energia, Água e Meio Ambiente – FENATEMA
Diretor de Educação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI)
Vice-presidente da Força Sindical
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